segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Quem você pensa que é?

   Sala de enfermaria... As macas enfileiradas, cada um aguardando a hora da cirurgia. Cada um na sua solidão ocorria o pensamento das possíveis últimas horas de vida. Numa cirurgia tudo pode acontecer... Pobre, rico, negro, branco se confraternizam com um sorriso amarelo.
  Senti-me útil ao ajeitar a touca de uma velhinha, cujos membros já se encontravam atrofiado. Veio um constrangimento de meu gesto de humildade.Não que eu seja uma pessoa má,mas não pude deixar de lembrar de minha casa, recém reformada de minha banheira e de meus sais de banho, dos cremes, do closet organizado como sempre sonhei ! Tudo me pareceu fútil, avaro, sem sentido. O sorriso desdentado da velhinha, fez com que me sentisse melhor. Ali todos eram iguais: branco, preto, pobre, abastado... Todos com uma camisola de chita que ao levantar-se irremediavelmente mostrava o traseiro. Vinham enfermeiras abrindo nosso peito colocando os aparelhos necessários. Enquanto mostrava os seios, objeto de admiração e prazer, se transformando num simples e mais um dos órgãos femininos. Veio-me a mente, as palestras, as bienais, as entrevistas com jornalista...
    Agora eu era mais uma de bunda de fora, que se agarrava as minhas crenças me entregando nas mãos de Deus. Bem, fé eu sempre cultivei e em nenhum momento me utilizei da soberba da ganância, conclui aliviada. Tinha a impressão de dedos invisíveis nos apontavam com um sorriso maroto: “Está vendo como você não é nada? Está sozinho, sofrendo e nesse momento, só Deus poderá fazer algo por você. Será que você também se lembrou Dele nos momentos de glória e olhando para o alto balbuciou um simples agradecimento? Será?
   Tive nesse momento, a certeza de que só vale a pena fazer o bem, só vale a pena valorizar nossa família que a distância são as únicas pessoas a torcer por nós, só vale a pena ter bagagem para apresentar ao Criador se algo não der certo como desejávamos e que o resto são fardos pesados demais por isso deixaremos tudo para trás no momento da partida.
   Fazendo esse balanço tive a impressão que Deus me estendeu a mão e quando meu médico me sorriu e perguntou: -Podemos ir? Eu disse com sinceridade:
- Sim, estou pronta!
   Senti o sangue quente banhar meu coração e fosse qual fosse o resultado eu me sairia bem, porque estava em paz, de bem com Deus. Sem Ele sim, eu não seria NADA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário